Coleção diverte e faz refletir

07/09/2020


Os Contos de Fadas sempre tiveram um papel importante na construção da nossa percepção do mundo. A Editora Biruta lançou, este ano, o último livro da Coleção Contos e Contadoras: Reis, moscas e um gole de astúcias - contos de fadas para pensar sobre justiça. Ao todo são três obras interessantes que resgatam 24 contos pouco conhecidos e que foram adaptados de forma a propiciar a reflexão do jovem leitor. As ilustrações são todas de Alexandre Camanho.

O terceiro livro, das autoras santistas, Helena Gomes e Susana Ventura, é inteligente e agrada de pré-adolescentes a adultos, pois traz textos sem nenhuma lição de moral pronta, fazendo-nos refletir sobre o equilíbrio das ações compensatórias para a restauração das perdas e qual a medida da justiça para cada um de nós? A escolha dos textos conseguiu reunir diversão e reflexão.

Antes, a Coleção já havia dialogado com o leitor, de forma muito lúdica, sobre Ética, em Dragões, maçãs e uma pitada de cafuné, das mesmas autoras, que selecionaram contos dos Irmãos Grimm, Perrault e Andersen que tratam de valores como lealdade, amizade e liberdade. E os contos antigos são campos férteis para o desenvolvimento de conflitos, dilemas e polêmicas. É muito bom, desde cedo, a criança já se deparar com tais questões como uma preparação para a vida real.

O segundo livro da Coleção fala sobre o papel da mulher, com o título Princesas, bruxas e uma sardinha na brasa, com a escrita de Geni Souza e Helena Gomes. É a meu ver o mais interessante. Coloca princesas, moças e fadas numa posição de protagonismo. As crianças de hoje precisam conhecer histórias que tenham personagens femininas fortes, pois não cabe mais a mulher o papel de séculos atrás, hoje, ela estuda, vai à faculdade, sustenta a família em muitas situações, seja a do desemprego temporário do parceiro, seja por estar sozinha.

Nas três obras, chama a atenção os posfácios da socióloga Giselle Soares, que dialoga de maneira clara sobre o certo e o errado, mostrando que esses valores podem variar muito de pessoa para pessoa e, por isso, são construídas regras de convivência para a sociedade, e que elas podem mudar dependendo do tempo e local. Também dialoga sobre a condição feminina e a questão de gênero que envolve os papéis feminino e masculino na sociedade, mostrando que nem todas se encaixam nos padrões sociais. Não é a toa que são as bruxas e madrastas que causam muito rebuliço nos contos. E por outro lado, o amor materno é capaz de salvar de muitos perigos.

Assim, o olhar sociólogo propicia uma reflexão mais profunda sobre cada reconto, mostrando como a ficção pode trazer elementos para a discussão da realidade. A Coleção Contos e Contadoras é material rico para discussões em sala de aula ou mesmo na família.